Da provocação à arquitetura: o que mudou no debate sobre soberania
- 9 de abr.
- 3 min de leitura
Em um artigo anterior publicado na TI Inside, provoquei uma reflexão importante: “Queimem os navios: nuvem soberana é a única resposta?”. A conclusão, na época, já era clara: não existe uma escolha binária entre nuvem pública e soberania.
Defendo que a verdadeira soberania não está na localização dos dados, mas na forma como eles são protegidos, governados e operados, e que o caminho mais inteligente passa pela combinação entre:
hyperscalers
indústria nacional
e modelos híbridos
Essa visão apontava para um conceito essencial: soberania como estratégia, não como infraestrutura isolada.

Fig.1.: The Forrester Wave™: Sovereign Cloud Platforms, Q2 2026
O que o novo relatório Forrester confirma
Agora, o relatório da Forrester, The Forrester Wave™: Sovereign Cloud Platforms, Q2 2026, divulgado nesta semana, reforça exatamente essa mesma direção, mas com um nível ainda mais estruturado:
Sovereign Cloud não é um produto
Não é uma nuvem isolada
E definitivamente não é “queimar os navios”
Pelo contrário, a Forrester mostra que soberania é construída a partir da combinação de múltiplos modelos, provedores e controles, em uma arquitetura deliberada e contextual.
Ou seja:
A ideia de abandonar nuvens públicas não só é limitada, ela é incompatível com a realidade do mercado.
Evolução do pensamento: de ideologia para arquitetura
O que antes era um debate quase ideológico (“soberano vs. não soberano”) evoluiu para algo muito mais pragmático:
Antes: Onde os dados estão, ou de quem é a tecnologia
Agora: Como os dados são controlados, protegidos e operados
Essa mudança é fundamental. Ela desloca o foco de infraestrutura para:
governança
arquitetura
modelo operacional
Entre o relatório e a realidade
A análise deste relatório da Forrester me permitiu complementar uma vivência prática acumulada ao longo de mais de 100 projetos entregues no setor público, onde tive atuação direta na implementação de soluções com Amazon Web Services, Google Cloud, Tencent Cloud, Huawei Cloud e IBM. Nesse contexto, fui inclusive precursor na introdução de projetos envolvendo tanto a Tencent Cloud quanto a Huawei Cloud em ambientes governamentais no Brasil, o que traz uma perspectiva concreta e comparativa sobre maturidade, capacidades e aderência regulatória desses provedores.
No quadrante de líderes, a leitura do relatório converge com a experiência prática principalmente em relação à Amazon Web Services. A AWS segue como referência em profundidade técnica e robustez operacional, enquanto o Google Cloud, conforme o relatório, apresenta uma evolução ao tratar soberania como parte nativa da arquitetura, com forte diferencial em inteligência artificial.
Já a Tencent Cloud, embora menos difundida globalmente, demonstra uma abordagem bastante sólida para cenários regulados e ambientes privados. Complementando essa análise, o relatório também posiciona de forma relevante a Microsoft e a Oracle como líderes, ainda que, neste caso, a avaliação parta predominantemente dos dados apresentados pela própria Forrester, dada a ausência de experiência prática recente com esses provedores.
Por fim, ao observar os provedores posicionados na parte inferior do quadrante, em especial Huawei Cloud e IBM, surge um ponto de atenção relevante. Apesar de já ter conduzido entregas com ambos, causou surpresa, e certa frustração, o fato de terem se recusado a participar do processo completo de avaliação da Forrester. Essa decisão impacta diretamente sua visibilidade e posicionamento no relatório, e inevitavelmente levanta questionamentos sobre transparência, estratégia e disposição para se submeter a comparações estruturadas em um mercado cada vez mais exigente e competitivo.
Conclusão: ninguém precisa queimar os navios
O novo cenário deixa claro:
Não é necessário abandonar a nuvem pública
Não é viável depender apenas de estruturas isoladas
Isolamento acelera a obsolescência
E não faz sentido tratar soberania como um destino único
O caminho real é outro: Combinar, orquestrar e governar múltiplas camadas de cloud para atingir soberania de forma inteligente, mas isso vai além da arquitetura técnica.
É fundamental trazer a soberania também para a camada de sustentação operacional e de gestão, garantindo que a operação, o suporte e a evolução dessas plataformas contem com a participação ativa de empresas nacionais.
São essas empresas que viabilizam, na prática, a soberania contínua, por meio de:
serviços profissionais
operação e sustentação
desenvolvimento e integração
e até mesmo tecnologias complementares
Na prática, isso já é uma realidade em diversos projetos no setor público, onde o marketplace dos provedores de nuvem passa a ser um instrumento estratégico para posicionar empresas nacionais dentro do portfólio oficial dos hyperscalers.
O resultado é um novo modelo:
plataformas globais, combinadas com capacidades locais
Onde infraestrutura, softwares, serviços, consultorias e licenciamentos são adquiridos de forma integrada, mantendo a escala e inovação dos grandes provedores, mas com controle, governança e soberania viabilizados por integradores nacionais.
Jônatas Mattes





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