Cloud no setor público: por que o modelo do Reino Unido ainda distribui melhor valor do que o brasileiro
- há 7 dias
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Quando se observa o uso de cloud no setor público, a comparação entre Brasil e Reino Unido deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser estrutural.
O Reino Unido acumula aproximadamente 15 anos de maturidade em cloud governamental, enquanto o Brasil opera há cerca de 9 anos nesse modelo. Essa diferença de tempo, por si só, não explica tudo. O que realmente diferencia os dois contextos é a forma como o acesso à nuvem foi concebido desde o início.
No Reino Unido, o modelo G-Cloud foi desenhado para viabilizar o acesso distribuído, permitindo que múltiplos órgãos, especialmente na ponta, consumissem cloud de forma direta. No Brasil, a adoção começou de forma mais centralizada, concentrada em órgãos federais e com maior dificuldade de descer para estados, municípios e serviços diretos ao cidadão. Essa diferença aparece com clareza quando se observa a distribuição de consumo.
A adoção começa na ponta
No G-Cloud, framework britânico de contratação de cloud, aproximadamente:
35% do consumo vem de saúde (NHS, hospitais e órgãos de saúde)
30% vem de governos locais (prefeituras e serviços ao cidadão)
Ou seja, quase dois terços do uso de cloud estão concentrados na ponta da operação pública, indicando que o modelo foi estruturado para resolver problemas reais de atendimento, saúde e serviços públicos, e não apenas modernizar grandes estruturas administrativas centrais.
No Brasil, essa pulverização ainda enfrenta barreiras conhecidas:
dificuldade de acesso para entes menores
falta de apoio técnico e consultivo
ausência de estruturas que sustentem a operação
dependência de iniciativas centralizadas
Na prática, não basta disponibilizar crédito ou contratos. Sem suporte, a adoção não escala.
O peso dos serviços: onde o orçamento realmente é consumido
Outro ponto relevante é a composição do gasto. No Reino Unido, em 2025:
Cloud Support representa 44% do consumo
Cloud Software, 32%
Cloud Hosting (infraestrutura), 24%
A maior parte do orçamento está direcionada para:
implementação
migração
segurança
operação
desenvolvimento
sustentação contínua
Ou seja, a infraestrutura é apenas uma parte da equação. No Brasil, historicamente, o modelo tem seguido outra lógica:
aproximadamente 95% do orçamento direcionado à tecnologia (infra/software)
cerca de 5% para serviços especializados
Essa diferença impacta diretamente a capacidade de execução. Sem a camada de suporte, a nuvem não se transforma em operação real. E é justamente essa camada que viabiliza:
autonomia dos órgãos
continuidade dos serviços
segurança
evolução das soluções
Além disso, é essa estrutura que fortalece a indústria nacional, criando espaço para empresas locais atuarem na sustentação, operação e evolução das plataformas.
Pulverização do consumo: um mercado distribuído
A distribuição dos clientes no Reino Unido reforça esse modelo descentralizado. O maior consumidor individual, o Ministério do Interior, representa 8,64% do total. Os demais grandes órgãos seguem com participações semelhantes.
Ao final, mais de 60% do consumo está distribuído em uma longa cauda de clientes menores.
Isso caracteriza um mercado:
amplamente distribuído
com múltiplos compradores
sem concentração excessiva
Esse padrão reduz dependência de grandes contratos únicos e permite maior capilaridade na digitalização.
Quem captura o valor
Do ponto de vista dos fornecedores, a leitura é ainda mais clara:
Amazon Web Services lidera com cerca de 19% do volume
Outros grandes provedores aparecem com participações menores
Mais de 69% está pulverizado entre diversos fornecedores
O dado mais relevante aqui não é a liderança de um provedor, mas o equilíbrio geral. O volume não está concentrado apenas nas plataformas de nuvem. Ele está distribuído entre:
integradores
consultorias
revendas
desenvolvedores de software (ISVs)
Na prática, a nuvem funciona como base. O consumo acontece por meio de serviços, software e operação.
O papel do marketplace e do modelo operacional
Os documentos e dados do Reino Unido, abertos, mostram uma separação clara de papéis:
a nuvem é a infraestrutura
o marketplace é o canal de aquisição
os parceiros são responsáveis pela entrega e geração de valor
O governo contrata cloud, mas consome soluções completas, compostas por:
serviços especializados
software
operação contínua
E são essas camadas que concentram a maior parte do valor econômico.
Diferença estrutural entre os modelos
Ao comparar os dois cenários, algumas diferenças se destacam:
Reino Unido
modelo descentralizado
acesso direto para múltiplos órgãos
forte presença de serviços especializados
mercado pulverizado
espaço amplo para parceiros
Brasil
modelo mais centralizado
dificuldade de acesso na ponta
concentração em tecnologia
menor participação de serviços
menor capilaridade operacional
Essa diferença explica por que a digitalização avança de forma mais rápida na ponta no Reino Unido.
A nuvem, por si só, não resolve o problema. Ela viabiliza.
O que transforma esse potencial em operação real é a camada que está sobre ela:
serviços
software
operação
sustentação
É nessa camada que o valor é construído, distribuído e capturado. E é também nessa camada que se define a capacidade de um país de escalar a digitalização do setor público de forma consistente.
Jônatas Mattes





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